Adestramento para pessoas ocupadas .

Adestramento para pessoas ocupadas . 

Matéria publicada na Revista Cães & Cia 
Fonte de entrevista – Ricardo Tamborini – Adestrador e especialista em comportamento canino

Foto de Sam Lion

 

Dicas de treinos rápidos e que funcionam! Eles podem (e devem) ser feitos no dia a dia.

Há quem reclame por ter cão ansioso demais. Outros se queixam porque o animal não obedece ao mais simples pedido. Qualquer que seja o mau hábito, provavelmente ele se formou por desconhecimento das técnicas de educação canina.

O interessante é que, mesmo quem tem um dia muito corrido pode educar o cão de casa a ponto de ele se tornar uma referência de bom comportamento. Nesta matéria reunimos várias dicas de como obter sucesso na educação canina mesmo quando se tem uma vida corrida.

Clara subordinação
Adestramento para pessoas ocupadas

Faz parte da essência dos cães querer saber a posição deles no grupo onde estão inseridos. “Os cães vêm de ‘fábrica’ com apenas duas opções: liderar ou ser liderado”, ressalta o adestrador especializado em comportamento canino Ricardo Tamborini, que atua em São Paulo e no Rio de Janeiro.
O que se vê frequentemente são cães tratados como filhos mimados, sem limites. O resultado do excesso de liberalidade tende a ser o desenvolvimento de maus hábitos. As chances de um cão criado sem limites se tornar bagunceiro, latir demais ou pular nas pessoas, entre outros transtornos, são elevadas.

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O valor do “não” – Desde o momento em que o cão entra em casa, seja adulto ou filhote, é fundamental que fique bem claro para ele o que não deve fazer. O “não” é fundamental nesse processo. Por meio dele, o cão toma conhecimento dos limites dele e percebe que não está no topo da hierarquia. “Diga ‘não’ sempre que ele fizer o que não deve”, reforça Ricardo. “Se não é para subir no sofá e na cama, nem ficar pedindo comida, latir à toa, destruir sapatos ou objetos, diga ‘não’ cada vez que ele fizer qualquer dessas coisas.” Naturalmente cães prestam mais atenção nas expressões e gestos corporais, e só em seguida na vocalização (de cães e pessoas). Portanto, para que a sua bronca realmente funcione, o seu corpo também tem que se comunicar com o cão. Tenha uma postura firme, olhe diretamente nos olhos do seu pet, e com uma entonação de voz também firme diga “não”.

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Dicas práticas:

Há diversas estratégias simples que, se aplicadas no dia a dia, ajudam a reforçar a boa educação do cão e a evitar o desenvolvimento de maus hábitos.

Ao chegar em casa – Entre com calma. Se o cão estiver agitado, espere que ele se acalme e só o cumprimente e faça carinhos nele alguns segundos depois que tiver se acalmado. Se ele estiver tranquilo, faça carinho nele, sem excitação. O cão precisa aprender que só ganha atenção quando está calmo. Exemplares que latem incessantemente ou que urinam de excitação com a chegada dos donos dão claros sinais de ansiedade excessiva. Eles também não devem receber a mínima atenção enquanto manifestarem esses comportamentos.

Durante os passeios – O programa começa no instante em que a guia é colocada no cão. Se no momento de sair ele estiver agitado ou ansioso, não saia. Espere com paciência até que a ansiedade diminua e ele se acalme. Na rua, nada de permitir latidos para outros cães ou pessoas. Se isso ocorrer, interrompa imediatamente a caminhada. Diga “não” bem firme e, depois que o seu cão tiver silenciado, continue o passeio. Para cães latidores, a regularidade dos passeios é importante no processo educativo. Promove a socialização e, com isso, contribui para a maior naturalidade na aceitação de outros cães e pessoas.

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Nos finais de semana – Sábados, domingos e feriados costumam ser os dias em que os cães contam com maior atenção por parte dos moradores da casa. É uma oportunidade e tanto para aumentar a cumplicidade com o animal da casa, o que contribuirá positivamente para o bom comportamento dele. Os passeios podem ser prolongados, ganhar novos percursos e destinos.
É possível praticar mais brincadeiras e comandos de obediência. As interações e o exercício proporcionados por essas atividades são importantes para manter em dia a saúde psicológica e física do cão. Lembrando, ainda, que cachorro cansado não dá trabalho.
Outra atividade interessante é escovação da pelagem. Além de embelezar os pelos, escovar proporciona cumplicidade, relaxamento e permite fazer um checape externo no cão, em busca de pulgas, carrapatos e anormalidades que possam prejudicar a saúde e o comportamento dele.

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Interações rápidas – Pequenas interações durante o dia são mais um recurso precioso para aumentar a cumplicidade com o cão e mantê-lo emocionalmente equilibrado.

Jogos caseiros Buscar bolinha é uma ótima atividade para exercitar o cão, mesmo em espaços pequenos. Esconder petiscos pela casa para o cão encontrar exercitando o olfato estimula a concentração do animal e o distrai, deixando-o mais equilibrado psicologicamente.
Ao deixar o cão sozinho em casa – Se o cão ficará dentro de casa sem nenhuma companhia procure amenizar a falta de distrações típica dessas situações. Assim que você estiver para sair, ponha ao alcance do cão os brinquedos de que ele mais gosta (guarde-os especialmente para essas ocasiões). Brinquedos interativos como as bolas que desafiam a esperteza e habilidade para tirar petiscos de dentro delas, são outra opção interessante.
Não cometa o erro de fazer “sessão” de despedida. Isso só aumentaria o sofrimento do cão nos momentos de solidão.
Se frequentemente você precisa deixar o cão sozinho por muitas horas, considere a possibilidade de ter mais um cão para ele ter companhia. Lembre–se que a convivência em bando faz parte do instinto de matilha dos cães.

Obediência básica

Ensinar o cão a atender comandos de obediência básica como o “senta”, “deita” e “fica” tem várias vantagens. A primeira é reforçar claramente a liderança sobre ele, fator fundamental para que se comporte conforme as regras da casa. Outro benefício é facilitar o controle do cão e evitar que se meta em situações de risco, como sair correndo para a rua ao ver a porta aberta. Atender ao “senta”, “deita” e “fica” permite também que o animal frequente qualquer ambiente público sem causar transtornos.

Além disso, o adestramento cria um canal de comunicação com o cão, permitindo que ele e o dono se compreendam cada vez mais. As interações durante os treinos estreitam o vínculo afetivo. Tudo isso contribui para a boa saúde física e psicológica dos cães. “Bastam alguns minutos por dia para ensinar os comandos de obediência básica”, lembra Ricardo “Não há grandes dificuldades: é necessário principalmente ter dedicação, amor e paciência.

Escolha do prêmio – “Chamamos de pagamento ou reforço positivo a recompensa que o cão ganha quando acerta exercícios, já que, assim como nós, humanos, cães não trabalham de graça”, pondera Ricardo. Atenção, carinho, petisco ou brinquedo podem ser moeda de troca. A motivação proporcionada por esses prêmios é capaz de variar bastante conforme o cão. O prêmio que costuma dar melhores resultados são os petiscos, representados por pedaços de bifinhos, de biscoitos para cães, de frango ou de salsicha, conforme explica Ricardo. O segundo da lista costuma ser o brinquedo preferido pelo animal.

Pode ser bolinha, bichinho de pelúcia ou um mordedor. Em terceiro vêm os carinhos ou ser pego no colo, bem como a atenção que o cão recebe quando corremos com ele e o elogiamos ao mesmo tempo. Cabe avaliar qual recompensa motiva mais o cão que será treinado e dar preferência para ela.

Sessões rápidas – Para que não se tornem chatas, as sessões de treino duram entre 10 a 20 minutos. Quando elas terminam, o cão deve ainda estar superatento e animado, para que a próxima aula comece com o máximo de interesse. Basta uma sessão dessas por dia.

Comandos eventuais – Uma ou duas vezes por dia, praticar rapidamente um comando já aprendido e premiar o cão pelo acerto é uma maneira de mantê-lo afiado na obediência além de aumentar a proximidade com ele e o vínculo afetivo.

Foto de Jayme Rocha – Clicks e Pets Fotografia

Ao servir as refeições – Essa é uma oportunidade de ouro para fazer o cão atender a um dos comandos já aprendidos. Ele estará altamente motivado pela perspectiva de receber a refeição.

Principais comandos O cão que atende ao “senta”, “deita”, “fica” e “junto” é de dar inveja pelo bom comportamento. E se ele ainda praticar um truque como “dá a pata”, fara sucesso garantido nas rodas de amigos. Veja no quadro “Comandos básicos” como deixar o seu cão com todas essas habilidades.

 

Mau hábito persistente

Em geral, os problemas comportamentais caninos resultam de educação incorreta. Se mesmo com as dicas de educação e obediência desta matéria persistir algum problema comportamental do cão, a pessoa certa para ajudar a encontrar a melhor solução é o especialista em comportamento animal. “O trabalho desse profissional é identificar a causa do problema e passar orientações e técnicas aos proprietários do animal para que eles mesmos consigam fazer as correções”, explica Ricardo. “Muitas vezes, esse trabalho inclui mudanças na forma de os donos lidarem com o cão.”

COMANDOS BÁSICOS

O adestrador Ricardo Tamborini ensina comandos de obediência fáceis de praticar e muito úteis no dia a dia:

Foto de Jayme Rocha - Clicks
e Pets Fotografia

Senta: Este é o primeiro comando que se ensina pela utilidade que tem no dia a dia e na prática de outros treinos. Segure um petisco com uma das mãos e posicione-se em frente ao cão. Mostre o petisco para ele e movimente a mão no sentido para cima do focinho e cada vez mais próximo dele. O cão olhará cada vez mais para cima e para trás até sentir necessidade de se sentar para não perder a recompensa de vista.

Nesse momento diga “senta” e entregue o prêmio.
Caso o cão tente pegar o petisco antes da hora, diga “não”, interrompa o exercício por alguns segundos e recomece.
Quando o exercício estiver sendo praticado corretamente, distancie-se um pouco do cão para treinar. Com o tempo, vá aumentando essa distância. Obter sucesso dando o comando de longe exige um grau mais elevado de obediência por parte do cão.

 

Deita: O segundo comando a ser ensinado é o “deita”. Peça “senta” e com o cão sentado, segure a recompensa (pode ser petisco ou brinquedo) e faça-o seguir a sua mão com o focinho em direção ao piso. Se ele encostar os cotovelos no chão, diga “deita” e entregue o prêmio. Se em vez disso ele levantar o bumbum, diga “não” e interrompa o exercício. Aguarde alguns segundos antes de recomeçar.
Parte dos cães tem dificuldade para entender que devem encostar os cotovelos no chão. Se o seu amigão for um deles, comece a recompensar cada pequeno movimento certo que ele fizer. Com essa técnica, os pequenos movimentos serão ajustados e será possível conseguir que o cão se deite corretamente.

Foto de Jayme Rocha – Clicks e Pets Fotografia
Foto de Jayme Rocha – Clicks e Pets Fotografia

Fica: Para ensinar este comando será preciso um pouco mais de paciência já que os cães preferem ficar perto do dono a permanecerem parados enquanto ele se afasta.
Inicie o treinamento com o comando “senta” ou “deita”. Assim que o cão estiver em uma dessas posições, mostre a ele a mão espalmada, no gestual de parado, e diga “fica”. Distancie-se um pouco, repita “fica” e continue com a mão espalmada.

Se, passados alguns segundos, o cão continuar onde estava, vá até ele e entregue o prêmio. Quando ele permanecer no lugar com você a determinada distância, passe a se afastar um pouco mais. Com o tempo, distancie-se cada vez mais, aumente a duração da espera e mude o seu posicionamento em relação ao cão. Alguns cães são muito ansiosos e ficam agitados quando são elogiados. Somente elogie seu aluno canino quando o comando tiver sido concluído com êxito, com você indo até ele ou com ele vindo até você depois de ter sido chamado.

Foto de Jayme Rocha – Clicks e Pets Fotografia

Junto: Antes de começar, assegure-se de que coleira e guia sejam adequadas para o tamanho dele (geralmente de um metro e meio). Quanto mais leve o material, maior a sensibilidade do animal ao receber correção. A leveza do material fará com que ele apenas sinta o peso da guia ao ser
corrigido. No restante do tempo terá impressão de estar solto. Para que ele não se distraia na fase inicial do exercício, convém começar os treinos em casa.
Como é necessário que você se posicione como líder do cão, ele nunca deverá andar na sua frente, mas ao seu lado ou atrás de você.

Andar com o cão à esquerda é uma convenção universal – mas pode posicioná-lo à direita. Segurando-o pela guia, comece a andar enquanto o chama, estimulando-o a acompanhar seus passos. Se ele seguir você, após alguns passos comemore e dê um petisco para reforçar o comportamento. Se ele continuar te seguindo sem puxar a guia, continue andando e recompensando a cada 10 ou 20 passos seus. Aos poucos, as premiações poderão ser dadas em intervalos maiores, até se tornarem desnecessárias. Cada vez que o cão puxar a guia, pare. Não olhe nem fale com ele até que a guia se afrouxe. Só então retome a caminhada.

Alguns cães entendem o exercício logo no início. Outros podem levar alguns dias, exigindo mais paciência e perseverança.

Quando o cão estiver andando sem puxar a guia em ambiente doméstico, já pode praticar fora de casa. Comece em rua calma e vá treinando em locais com mais distrações, como praças e parques.
Há outras técnicas para o condutor que tem dificuldade de desenvolver a técnica básica por falta de foco do cão. Uma é, caso ele puxe para um dos lados, o condutor ir para o lado oposto. Outra é, quando o cão começar a puxar a guia, virar o corpo 180 graus e andar no sentido oposto. A repetição desses exercícios reforça a ideia de que os trajetos são traçados pelo condutor.

Mas a técnica mais recomendada é a básica, até por ser mais agradável para o cão e para o dono.

Foto de Jayme Rocha – Clicks e Pets Fotografia

Dá a pata: Não convém treinar este exercício com o cão em pé, por não ser uma postura confortável para levantar a pata e tocar a palma da sua mão. Por isso, comece a sessão comandando “senta”. Com o cão sentado, segure o petisco e, com a outra mão, levante a pata dele. Diga “patinha” ou “toca aqui” e segure a pata por 2 ou 3 segundos. Recompense entregando o petisco.
Repita várias vezes para que o cão associe o comando com dar a patinha e ganhar petiscos e elogios.

Quando essa associação tiver sido criada, ao ouvir o comando ele levantará a pata esperando receber o petisco.
Na segunda parte do treino, quando ele estiver com a pata levantada depois de ter recebido comando, encoste a mão na pata dele e premie. Repita o treino até chegar ao ponto em que, ao comandar “patinha”, você estica a sua mão com a palma para cima, e naturalmente o cão apoia a patinha sobre ela.
Quando essa etapa estiver concluída, o exercício poderá ganhar sofisticação adicional, caso assim deseje. Com a palma da mão para cima peça “dá a pata esquerda” ou “dá a pata direita”. Se ele der a pata errada, diga “não” e toque na pata que você pediu, para que assimile.

 

Fonte de entrevista: Ricardo Tamborini - Adestrador e Especialista em Comportamento Canino
Reportagem e coordenação de imagens: Samia Malas • Revisão de estilo: Marcos Pennacch

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